Só Cinquenta e Sete Dias
Pois é, a marcha do tempo é inexorável. Quando menos se espera, tudo passa rápido demais. Por isso, quem aproveitou os momentos soube viver — mas quem não aproveitou, um dia vai se arrepender.
Por quê? Porque os momentos são as únicas coisas que pertencem aos seres humanos, por serem o único bem que vai com o falecido para o túmulo. Tudo o mais se esvai na fumaça das lembranças.
E pensar que, de hoje até o final do ano, faltam apenas cinquenta e sete dias — um curtíssimo espaço de tempo, principalmente para aqueles que olham para trás e veem que não deu tempo de fazer quase nada. Nada foi acrescentado ao acervo pessoal que pudesse ter modificado o rumo das coisas. Daí, dá uma tristeza por não se ter sabido aproveitar o tempo perdido, às vezes por simples descuido, e outras por ignorar o valor dos momentos.
É interessante que, na virada do ano, todos sonham e têm projetos a serem alcançados durante o novo ano: uma viagem, a aquisição de um bem, a progressão no trabalho, o reencontro com familiares e amigos que há tempos perderam o elo da convivência, desfrutar melhor o tempo e cuidar mais da saúde.
Mas, como sempre, pouca coisa ou quase nada é feito. Descaso — porque surgiram outras variantes a serem alcançadas, ou porque não lembramos de tudo o que pretendíamos fazer.
Mas não importa. Essa maneira de deixar de fazer o que se pretendia na virada do ano é regra quase geral para todos. A alegria da data cria expectativas — mas o dia a dia, com tropeços e mudanças de rumo, deixa para trás os sonhos e objetivos.
E assim o ano que começou entre fogos de artifício, brindes com taças de champanhe, abraços calorosos entre familiares e amigos presentes, lágrimas e saudades, vai ficando distante, e os indivíduos enfrentam novos desafios.
Sim, porque no caminho da existência tudo acontece sem esperar — o futuro só a Deus pertence.
E nesse mundo real, sem a magia do réveillon, sem o afago daqueles que mais amamos, o palco da vida muda de cenário e voltamos a cair na realidade do nosso próprio mundo, onde as dificuldades vão e vêm, as alegrias são efêmeras, os pensamentos mais preocupantes e a vida tem espaços nem sempre gratificantes.
Mas tudo bem, quase tudo é suportável — mesmo que os momentos não tenham sido tão bons, quando surge uma doença para atrapalhar de vez a felicidade de viver.
Parece que os momentos (que são tão nossos) perdem a graça, pois nada mais se ajusta e tudo fica fora de lugar, porque o sofrimento inesperado abate e nos tira o chão para pisar.
E tudo acontece quando menos se espera. É a partir desse fato que o mundo desaparece perante os nossos olhos e nos sentimos como um grão de areia no meio de um grande deserto.
Enfim, são tantos os motivos que nos levam a desviar do rumo traçado que, quando nos damos conta, faltam poucos dias para terminar o ano...
“Que nosso próximo réveillon seja de sonhos e projetos — e sejam todos eles plausíveis de realizações, sem obstáculos intransponíveis. Que ninguém esmoreça nem perca o foco. Para isso, que ninguém subestime os momentos, pois eles são únicos — e, quando passam, não voltam mais.”
