Uma Capital Invisível
Não é possível ignorar os absurdos que acontecem na capital federal — Brasília —, uma cidade onde tudo acontece como se a sua existência fosse uma miragem, porque ninguém mais se importa em saber que lá tudo é possível.
Não sei se é a verdadeira Terra do Nunca, do inesquecível Peter Pan, ou a cidade perdida de Atlântida, ressurgida por obra do acaso, trazida à superfície pela vontade de algum dos deuses do Olimpo.
Dizem que Brasília não é surreal, embora nela também habitem corruptos, políticos e duendes, onde quem não é ministro não é nada — mas quem é presidente é rei.
É a única urbe-avião cuja planta não voa, não sai do lugar, mas aterroriza tanto quanto se estivesse atravessando uma tempestade de raios e trovões, tamanha a sua má fama.
E por que ninguém mais se importa com o que acontece em Brasília?
Simples: para não morrer enfartado.
Se os brasileiros que pensam, trabalham e amam o país se preocupassem minimamente com o que sucede naquele local, já estariam internados em algum hospital psiquiátrico.
Brasília é a terra que Deus não criou.
Por quê?
Porque se o Brasil não tivesse Brasília — e as “autoridades” que por lá orbitam —, seria o próprio paraíso na Terra.
Já pensou se o Luiz Ignácio continuasse sendo apenas um torneiro mecânico aposentado, recebendo do INSS o que qualquer outro mortal recebe?
O Collor, o Sarney, o Renan, o Dino, a Marina e et caterva jamais teriam saído de seus estados, continuariam fazendo o que sempre souberam fazer — nada —, mas limitados às suas regiões de origem.
O Xandão seguiria em São Paulo, defendendo traficantes;
o Fachin continuaria lecionando em Curitiba;
o Gilmar estaria no Mato Grosso dirigindo um clube de futebol;
a Gleisi aposentada pela Itaipu;
o Haddad não seria ninguém;
o Boulos estaria fugido da polícia;
o Alckmin, num consultório do interior, tentando localizar o rim no corpo do paciente;
e o Amorim seria secretário em uma embaixada no Casaquistão.
E Brasília seria um imenso cerrado, onde o sol causticante reinaria sozinho.
O Brasil seria pujante, feliz, o povo alegre e descontraído, porque sem o apoio dessa gente não existiriam PV, PCC, MST, PT, PSD, CBF, nem Maduro, nem o narcotráfico e muito menos o chatíssimo cinema brasileiro.
Seria uma limpa feita com palha de aço, creolina e bombril.
Sem os prédios dos Três Poderes, não teria havido o quebra-quebra de 8 de janeiro, e ninguém estaria ilegalmente preso.
A capital seria o Rio de Janeiro, onde o presidente, ministros e parlamentares passariam os dias nas praias, em vez de urdindo besteiras em seus gabinetes.
E os Estados Unidos seriam novamente nossos aliados e amigos de sempre.
Seria ou não seria um Brasil diferente?
— Tá, concordo com você, seria sim diferente… mas vamos e venhamos, essa felicidade toda não existe.
— Mas você concorda que seria ótimo, não é mesmo, Tucides?
— Essa crônica cheira mais a história da carochinha, um conto de fadas… ou, quem sabe, uma fábula.
— Você acha? — perguntei, cutucando.
— Claro. Nem o Esopo pensaria em coisa igual. Só está faltando a moral da história.
— Está bem. Se é o que quer, encerro com a moral da fábula:
“Se Brasília não existisse, a capital continuaria sendo o Rio de Janeiro — com sol a pino, calor, praia, samba, futebol e carnaval. O presidente nunca seria o Luiz Ignácio, nem o Haddad ministro da Economia, nem o Lewandowski ministro da Justiça e da Segurança Pública.
Fosse quem fosse o presidente, seria infinitamente melhor — mesmo que colocasse as duas mãos no jarro do Erário Público!”
