Quando o Bem é Cobiçado
Não sei como, mas nos últimos dias tenho sido incomodado por um “picareta” que compra e vende carros. Por mais que eu diga que não quero vender meu Fiat 147, cor amarelo Ferrari, o sujeito insiste. Ele disse que é de São Paulo e veio para Curitiba contratado por um emir árabe, com a missão de comprar meu carro pelo valor que eu quiser, pois o tal emir pagará à vista, em euro, dólar ou até com lotes de camelos.
Respondi que meu carro não está à venda, mas o corretor acredita que ficará milionário se conseguir fechar o negócio, já que sua comissão lhe garantirá uma aposentadoria de rei. Expliquei que não tenho nada com isso, pois meu Fiat 147, amarelo Ferrari, é de valor inestimável — não pode ser cotado por nenhuma bolsa de valores do mundo por ser uma raridade.
O sujeito armou uma barraca na frente do prédio onde moro, vigiando minhas saídas para insistir no negócio. É claro que, mesmo que fosse tentado, jamais aceitaria vendê-lo, nem por um valor estratosférico. Quem já viu meu carro com certeza entende minha preocupação: sou o único proprietário de uma máquina dos sonhos.
Quando saio com ele nos finais de semana e passo pela Praça Espanha, onde há os loucos por carrões, sou parado por dezenas de fãs que querem fotos de todos os ângulos. Só consigo voltar para casa de madrugada. Mas nunca tinha enfrentado um corretor tão insistente e chato.
Resolvi pedir ajuda ao meu amigo Tucides:
— Alô.
— Tucides?
— Oi, tudo bem?
— Amigo, tem um chato acampado aqui na frente querendo comprar meu Fiat 147, amarelo Ferrari. O homem diz que está a serviço de um emir de Doha, dono de muito petróleo...
— E por que você não vende?
— Ora, amigo, se eu vender, quando terei outro igual?!
— É verdade. Nunca!
— Você poderia usar de nossa velha amizade para convencer o sujeito a desistir do negócio e voltar para São Paulo?
— Claro — respondeu Tucides.
Desliguei o telefone. No dia seguinte, vi Tucides conversando com o corretor. Logo depois, o homem desmontou a barraca, entrou no carro e foi embora.
“Legal”, pensei. “O Tucides resolveu.” Mas fiquei curioso para saber qual foi o argumento.
Pouco depois, a campainha tocou. Abri e era ele:
— E então? Como você o convenceu?
— Muito fácil: disse para ele tirar o cavalinho da chuva, pois nunca conseguiria comprar o teu possante.
— Só isso?
— Bem... também disse que, se quisesse tentar, que o emir viesse pessoalmente, com uma tenda enorme, dezenas de odaliscas, eunucos, seguranças e centenas de camelos como moeda de troca.
— Tá louco, Tucides!
— Louco nada, você pediu para eu tirar o chato do teu pé, e eu tirei.
— E quando o emir vier? Quem vai convencê-lo a desistir?
— Eu mesmo.
— Como?
— Vou dizer que o Fiat 147 bateu de frente com uma jamanta, fundiu o motor, furou os quatro pneus, perfurou o radiador e caiu no Rio Iguaçu.
— Boa! Só uma coisinha, Tucides...
— O quê?
— Diz também que a pintura amarelo Ferrari desbotou por causa da água do rio.
— Ué, mas por quê?
— Só pra garantir que ele não queira comprar nem a sucata. Até porque, se desbotar, até eu acho que meu Fiat desvaloriza um pouco...
"Nunca queira ser dono de um veículo fora de série, pretendido por reis e rainhas.
Porque você nunca mais terá sossego na vida. Mas, se tiver um, resista, não venda, não se desfaça dele para não se arrepender. Quer ver meu carro? Pegue sua máquina fotográfica e vá até a Praça Espanha, para uma foto inesquecível do meu Fiat 147, cor amarelo Ferrari."
